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Homicidômetro - Assassinatos no Ceará 2017

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Atualizado em 23/11/2017  

Policial civil aposentado escreve carta ao público revelando sua tristeza pela decadência da instituição

Polpícia Civil sede

Sede da Polícia Civil, prédio histórico conhecido como "O Casarão de Mil Histórias"

Publicamos hoje a carta de um policial civil aposentado. Testemunhando o desprestígio e a decadência da sua instituição, e ao mesmo tempo o avanço da criminalidade no nosso estado, o inspetor Flávio Lopes Serpa decidiu expor para a sociedade o seu sentimento de frustração e decepção com tudo o que está acontecendo. Leia.

Flávio Serpa

Inspetor Flávio Serpa

ÉRAMOS UMA FAMÍLIA

"Nossa instituição policial,  a Polícia Civil do Estado do Ceará, se perdeu no tempo. Antigamente, cabia à POLÍCIA CIVIL o enfretamento aos bandidos. Frente a frente, nas ruas.  Realizávamos  rondas, blitze, policiamento nas principais ruas e avenidas de Fortaleza (com policiais masculinos das delegacias Especializadas. As policiais femininas eram chamadas de "panteras do general”  (em referência ao secretário de Segurança Pública da época, general Assis Bezerra). O sentido era fazer prisões de lanceiros e descuidistas que agiam no Centro de Fortaleza.

Realizávamos também policiamento ostensivo nas principais entradas e saídas de Fortaleza Havia também as Delegacias Móveis nas praças do Ferreira e José de Alencar, onde atuavam agentes, escrivães e delegados, todos se revezando nos plantões 24 horas.  Éramos escalados também para plantões nas unidades hospitalares tais como IJF e HGF, e, após as 24 horas de nossos plantões, enviávamos  relatórios  para as delegacias de plantão e Delegacia Geral.

Ainda havia as delegacias especializadas como a Furtos e Roubos, Capturas, de Entorpecentes e Dops, funcionando 24 horas, com seus policiais efetuando rondas por Fortaleza, principalmente nas grandes favelas.

Hoje não vejo mais isso, não sei por que. Por falta de policiais civis? Porque os policiais civis querem obedecer rigorosamente os estatutos, onde diz que não é de competência da Polícia Judiciária fazer polícia ostensiva? Ou falta a quem está à frente da Pasta experiência para fazer Polícia voltada para combater o crime?

Atualmente, os policiais estão nas delegacias sendo babás de presos ou esperando os crimes acontecerem para só depois agirem. E cadê a prevenção aos crimes antes de acontecer, como faziam os policiais civis antes nos anos 80 até o inicio dos anos 90? Esses fatores eram de suma importância para a valorização dos policiais civis cearenses  e da própria instituição junto ao Governo do Estado, assim como também da sociedade.

Antigamente, até o nosso carinhoso e histórico "casarão de mil histórias”, que, além de ser nossa segunda casa, era  também a casa oficial do secretário da Segurança Pública do Ceará. Hoje, até isso foi tirado da nossa Polícia Civil.

Com isto, aos longos dos anos fomos perdendo, dia a dia, o nosso espaço no contexto da Segurança Pública. Por causa desses pequenos detalhes a Polícia Civil cearense ficou fraca e desvalorizada perante os últimos governos estaduais. Antigamente, sem ofender os policiais civis de hoje, tínhamos servidores com menor grau de escolaridade, mas, em compensação, éramos  todos vocacionados e comprometidos com Instituição policial e com sociedade. Tínhamos mais liberdade para agir contra o crime. Outro fator primordial para uma Polícia Civil forte era a união entre os colegas. Éramos uma FAMÍLIA". 

Flávio Lopes Serpa (Inspetor da Polícia Civil, aposentado)

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